É com alegria que apresentamos a mais nova publicação do I. Eqüit: Mulheres nas Chuvas: eventos climáticos, resistência comunitária e as mulheres no Rio Grande do Sul.
Frequentemente, ouvimos falar sobre as desigualdades de gênero frente à crise climática e os eventos extremos, como secas ou enchentes, e que as mulheres são mais afetadas pelas mudanças climáticas, mas nem sempre fica claro como:
De que maneira as mulheres são mais afetadas pelos extremos climáticos? Buscando responder a essa pergunta, o I. Eqüit elaborou uma pesquisa qualitativa com mulheres do Rio Grande do Sul que viveram momentos dramáticos em 2024 com a inesquecível enchente desse ano, que assolou todo o estado, promovendo destruição em quase todos os municípios e deixando um rastro de memórias dolorosas, ansiedades e medos perturbadores, além de muitas dívidas e uma perda material incontável na vida de milhares de famílias.
A pesquisa revela que as mulheres são as mais afetadas principalmente devido à sobrecarga desigual dos trabalhos de cuidado não remunerados, que já é expressiva no dia a dia habitual (pesquisas da OIT indicam que as mulheres realizam cerca de 76% do trabalho de cuidado não remunerado no mundo): desde uma série de tarefas práticas, diárias e esporádicas, (como cozinhar, lavar a roupa, a louça, limpar a casa, levar crianças em suas atividades, dentre uma infinidade de outras), até toda a carga mental (desde a organização da lista de compras até a tomada de decisões, passando por toda a carga psicológica e afetiva de mediar conflitos, acalmar medos e encontrar soluções para as mais variadas situações dos familiares) que o cuidado não remunerado das mulheres significa.
Agora, quando nossa casa é tomada pelas águas, levando todo nosso investimento em nossos empreendimentos, e somos forçados a um deslocamento para um abrigo, todas essas tarefas do cuidado, não só aumentam como se transformam, demandando das mulheres uma habilidade sem igual para conseguir, literalmente, da noite para o dia, segurança, alimentação, higiene, roupas limpas e o mínimo bem-estar para suas famílias.


100% das mulheres entrevistadas relataram perdas patrimoniais e financeiras em seus núcleos 

Por outro lado, a pesquisa aponta que além de serem as mais prejudicadas pelos extremos climáticos, as mulheres também são as mais comprometidas com a vida das populações atingidas: são elas que principalmente aparecem na linha de frente solidária através das organizações populares e comunitárias, que foram e são fundamentais na resposta imediata à crise. “As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 revelaram uma das maiores mobilizações solidárias da história recente do estado. […] Nesse contexto, o voluntariado emergiu como uma força fundamental para garantir acolhimento, alimentação, cuidados de saúde e apoio emocional às populações atingidas. Há uma certeza coletiva em afirmar que a resposta mais imediata à emergência veio da ação coletiva da sociedade civil organizada e de cidadãos comuns que se dispuseram a ajudar”.
Nesse sentido, é fundamental apoiar (e de modo contínuo) as atividades e trabalhos comunitários nos territórios, muitas vezes liderados e organizados pelas mulheres locais.
Sem deixar as responsabilidades do Estado para com as suas populações nas mãos das comunidades, é essencial fortalecer as ações locais, inclusive para aliar as forças.
Sabemos que as mudanças climáticas não são um problema climático, mas antes um problema econômico; sabemos que embora seja um problema global, ele não será sentido igualmente por todes; sabemos que as desigualdades econômicas fazem a crise climática pesar muito mais sobre as populações periféricas do mundo; e nesse sentido, é preciso manter o debate crítico sempre na ponta e alerta.
O Instituto Eqüit tem um compromisso ético com as formas de vida na terra: e por isso e porque acreditamos na potência feminista para o surgimento de um mundo mais fraterno, é que oferecemos esta publicação, no intuito de contribuir para nossas lutas.
Agradecemos profundamente a todas as pessoas que participaram e colaboraram para esta pesquisa, e nos solidarizamos com todo o povo afetado por extremos climáticos.
Seguimos em luta, boa leitura!
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